Enteroscopia com Balão

A enteroscopia com balão é uma técnica endoscópica desenvolvida no Japão em 2001, que permite avaliar todo o intestino delgado - porção do tubo digestivo inacessível à endoscopia digestiva alta e à colonoscopia. Além de possibilitar o diagnóstico de múltiplas patologias do intestino delgado, permite a realização de várias intervenções terapêuticas, o que constitui uma grande vantagem face à enteroscopia por cápsula. Algumas das lesões identificadas com videocápsula podem ser posteriormente biopsadas, excisadas ou tratadas durante uma enteroscopia com balão. Dependendo da indicação, esta enteroscopia pode constituir uma alternativa à cirurgia.

A procedimento é realizado habitualmente sob sedação anestésica, e tem uma duração que pode variar entre 45 minutos a 2 horas, dependendo da dificuldade do exame, da sua indicação e da necessidade de efetuar procedimentos terapêuticos (por exemplo, polipectomias, dilatações, colocações de próteses, etc.). 

O exame consiste na introdução de um tubo flexível com cerca de 2 metros (enteroscopio de duplo ou mono-balão), através da boca ou do ânus, de modo a visualizar a maior extensão possível de intestino delgado e dependendo da porção de intestino delgado que se pretende analisar (por exemplo, quando se identificou alguma lesão por outro método – videocápsula ou entero-ressonância, numa localização específica do intestino delgado). Além de uma fonte de luz e de uma pequena câmara de vídeo na extremidade, que transmite a imagem para um monitor, o enteroscópio desliza no interior de um sobretubo equipado com um balão. No enteroscópio de duplo balão, o próprio aparelho também dispõe de um balão na extremidade. Depois de insuflados, os dois balões fixam-se à superfície do intestino delgado, permitindo a progressão do enteroscópio e do sobretubo. Durante o procedimento tem de ser insuflado ar no intestino para que a mucosa intestinal seja devidamente visualizada, o que pode condicionar cólicas ou uma sensação de pressão intestinal após o exame. À medida que se progride ao longo do intestino delgado podem ser realizadas biopsias ou efetuados outros procedimentos terapêuticos. 

Após o procedimento o doente é instalado numa unidade de recobro anestésico, e após algumas horas pode regressar a casa, desde que não se tenham verificado eventos adversos.

Preparação

  • O exame é, em princípio, realizado sob anestesia. Para isso o doente deverá ser observado previamente em consulta de anestesia e realizar alguns exames complementares: telerradiografia do tórax, eletrocardiograma e análises (hemograma, provas de coagulação e parâmetros bioquímicos).
  • Informar o médico Gastrenterologista que lhe vai realizar o exame de toda a medicação que está a tomar, especialmente anticoagulantes (varfarina, acenocumarol, dabigatrano, rivaroxabano,...) ou antiagregantes plaquetares (ácido acetilsalicílico, ticlopidina, clopidogrel, triflusal, dipiridamol,...); a suspensão ou não dos mesmos depende das suas doenças cardiovasculares e do risco de hemorragia do procedimento a que vai ser submetido, pelo que essa decisão compete ao seu Médico Assistente.
  • Informar o médico de eventuais alergias a medicamentos.
  • Analisar a história de cirurgias abdominais prévias.
  • Planear o dia do exame (acompanhantes/familiares) – No dia do exame (ou na véspera conforme indicado) deve dirigir-se ao Hospital. Na maioria dos casos, o doente tem alta algumas horas após o exame, mas não poderá conduzir, pelo que deverá estar acompanhado. Em alguns casos, o procedimento pode implicar um internamento.
  • Limpeza intestinal - Ingestão da preparação laxante e dieta líquida nos 2 dias que antecedem o exame. A limpeza intestinal está indicada quando o acesso ao intestino delgado é feito através do ânus. Existem várias preparações disponíveis, com diferentes sabores e volumes de água variáveis. Habitualmente a preparação deve iniciar-se na véspera do exame (no final da tarde) provocando dejeções aquosas progressivamente mais claras. A escolha da preparação deve ser adequada a cada doente, nomeadamente tendo em conta a presença de insuficiência renal. Cada produto é acompanhado do respetivo modo de preparação.
  • Jejum de pelo menos 6 horas. Tratando-se de um procedimento em que se pretende visualizar de uma forma detalhada o intestino delgado é imprescindível não ter alimentos no lúmen intestinal. Sendo um exame habitualmente realizado sob anestesia é essencial assegurar que a cavidade gástrica não tenha líquidos ou resíduos alimentares que impeçam o procedimento ou aumentem o risco de aspiração.
  • Deve ser portador do impresso relativo ao Consentimento Informado devidamente assinado.  

Indicações

  • Esclarecimento de quadros de anemia ferropénica, hemorragia digestiva, diarreia crónica, dor abdominal crónica, quando a investigação com endoscopia digestiva alta e colonoscopia com ileoscopia não identificou lesões suspeitas.
  • Avaliação de porções do intestino delgado que não são acessíveis com a endoscopia digestiva alta ou com a colonoscopia, para esclarecimento de anomalias identificadas por outros métodos – videocápsula, tomografia computorizada, ressonância magnética ou enteroclise.
  • Suspeita de doença de Crohn.
  • Suspeita de tumores do intestino delgado.
  • Realização de biopsias em lesões ou em mucosa do intestino delgado, para ajudar a fazer um diagnóstico.
  • Avaliação da resposta à terapêutica instituída nos casos de doença celíaca ou de doença de Cröhn.
  • Marcação/tatuagem de lesões do intestino delgado, para facilitar a sua posterior localização e remoção cirúrgica.
  • Tratamento de hemorragia secundária a angiectasias e malformações artério-venosas do intestino delgado (por exemplo, através de fulguração com Argon-Plasma, aplicação de hemoclips, injeção de fármacos).
  • Remoção de corpos estranhos (por exemplo, videocápsulas retidas).
  • Excisão de pólipos do intestino delgado, especialmente em doentes com síndromes polipoides (por exemplo, síndrome de Peutz-Jeghers ou Polipose Juvenil).
  • Dilatação de estenoses do intestino delgado (por exemplo, estenoses pós-operatórias; estenoses secundárias a doença de Cröhn).
  • Colocação de tubos de alimentação (jejunostomia). 

Contra-indicações

A enteroscopia com balão está contra-indicada ou pode não ser exequível nas seguintes situações: 

  • Ausência de consentimento informado
  • Obesidade mórbida
  • Gravidez
  • Antecedentes de cirurgias abdominais múltiplas a condicionar aderências intestinais
  • Distúrbios graves da coagulação (INR>1,5; Plaquetas<50.000)
  • Doença cardiopulmonar ou neurológica instável (Enfarte agudo do miocárdio, arritmias, insuficiência cardíaca descompensada, acidente vascular cerebral)
  • Perfuração intestinal 

Complicações

A enteroscopia é um procedimento seguro, e as complicações graves são raras. Os riscos variam de acordo com o doente em causa (nomeadamente com a indicação para o exame e a existência de co-morbilidades), estando sobretudo relacionadas com eventuais procedimentos adicionais que seja necessário efetuar (por exemplo, biopsias, remoção de pólipos, terapêutica hemostática, etc.). 

No entanto, com alguma frequência, os doentes podem apresentar as seguintes queixas:

  • Dor de garganta (quando o exame é efetuado pela boca)
  • Distensão abdominal - durante o exame tem de ser insuflado ar no intestino o que pode condicionar cólicas ou uma sensação de pressão intestinal
  • Náuseas
  • Pequenas hemorragias autolimitadas 

Estas queixas são habitualmente ligeiras e resolvem espontaneamente cerca de 24 horas após o procedimento. 

Entre as complicações mais graves que podem ocorrer destacam-se as seguintes: 

  • Perfuração intestinal
  • Hemorragia grave
  • Pancreatite Aguda

Geralmente estas complicações são resolvidas com técnicas endoscópicas ou terapêutica médica conservadora, mas, em último recurso, poderá ser necessário realizar uma cirurgia de urgência. 

Existem também riscos associados à sedação endovenosa ou à anestesia.

Como em todos os atos médicos interventivos há um risco de mortalidade, embora muito reduzido (menos de 0.1%).

Se após o exame surgirem queixas de dores torácicas ou abdominais intensas, perdas de sangue significativas, febre, vómitos ou dificuldade respiratória, o doente deve dirigir-se ao Serviço de Urgência mais próximo.

Vídeos


© 2018 SPED. Todos os direitos Reservados. MediaPrimer